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| O alt porn foge dos clichês da indústria pornográfica convencional |
| Divulgação |
Daniel Carmona
Filmes e fotografias que envolvem nudez, sensualidade e sexo explícito de uma maneira diferente do que se convencionou rotular como pornografia. Numa tentativa de reinventar ou reinterpretar o pornô, empresas emergem no mercado inspiradas por uma atitude underground, atrelada ao estilo de vida e aos gostos musicais dos produtores, atores, e demais envolvidos.
Este é o Alt Porn ou, simplesmente, a pornografia alternativa. Uma maneira curiosa de explorar um universo de sensações e prazeres que difere do padrão consolidado pela indústria do pornô.
Em outras palavras, o gênero procura romper com o clichê representado por beldades saradas e machos fortões que atuam de maneira utópica. No Blog do Repique, publicação veiculada pelo Terra Magazine, a produtora multimídia Paula Guedes definiu o Alt Porn como um gênero "sub pop", que propõe uma atitude de consumo estética e ideológica.
Ao contrário do que pode parecer, Paula atenta para o fato da pornografia alternativa não ser um produto caseiro, mas uma nova vertente que rompe com estereótipos criados pela indústria para cultuar uma estética dos anos 90, que valoriza o respeito às garotas, o visual punk, surfista, skatista.
Mas a pornografia alternativa é bem mais ampla. R. Rufião, um dos criadores da X-Plastic, uma produtora do gênero, atenta para a multiplicidade de estilos e idéias que o Alt Porn procura juntar. "É também tentar fazer o pornô da maneira mais democrática possível. É meio que um faça-você-mesmo", explica.
Ele diz que o Alt Porn é um gênero aberto na medida em que não envolve apenas atores profissionais e qualquer pessoa pode colaborar, seja para executar as cenas de ação, ou para sugerir idéias na produção de um filme, por exemplo.
Rafael Husek, 25 anos, é produtor de eventos e gerencia o site FreakGlam. Ele aposta no conteúdo 100% colaborativo. "Eu nunca gastei um real e nem obtive um real. O conteúdo sempre foi enviado pelos leitores e pelas modelos que queriam apresentar o ensaio", explica.
Husek diz que começou no Alt Porn com uma amiga que gostava de tirar fotos dela mesma. Ele propôs fazer um site para publicação das imagens e a idéia vingou.
"As pessoas gostavam do pornô, mas estavam insatisfeitas com o formato único e, portanto, repetitivo", diz o criador da X-Plastic. Outra inquietação dos alternativos era de que o material pornográfico servia apenas para ser consumido pelas pessoas, e fazer o pornô era um tabu, em boa parte pelo preconceito com aqueles que faziam cenas pornográficas.
Justamente da problemática é que surgiram as sugestões. Inspiradas pelo estilo de vida, por gêneros musicais como punk, rock, electro, a pergunta que ficava era: por quê não fazer pornografia com a pessoa que está próxima de você?
"É como um papo de bar levado a sério", resume Rufião sobre o que é o Alt Porn. "Um cara gosta de pornografia, olha para o lado, vê uma menina bonita e diz que quer fazer pornografia com ela".
O trabalho de juntar aspectos e desejos da realidade, de acordo com a cultura dos produtores e atores, resultou num formato que é cada vez mais valorizado pela indústria pornográfica convencional.
"As coisas se misturam e a estética fica interessante. Os próprios meios de comunicação acabam partindo justamente para copiar esse jeito amador que vem do Alt Porn", justifica Rufião. Atualmente, o gênero é fortemente influenciado pelo estilo gótico, clubber, punk rock e emo.
Nada de rótulos
Mas se engana quem pensa que a pornografia alternativa é um rótulo consolidado. Se depender de quem faz o gênero, o simples fato de utilizar título Alt Porn é considerado limitador para o entendimento desta pornografia.
"O rótulo serve para colocar as coisas na prateleira. Mas tem que tomar cuidado para não deixar isso limitar. Esta nova leitura da pornografia nasceu justamente da liberdade do estilo. A função negativa do rótulo seria justamente limitar o Alt Porn ao pornô de meninas tatuadas, por exemplo, e pronto", atenta Rufião.
Rafael Husek é mais direto. Para ele, a pornografia alternativa precisa ser alternativa em todos os conceitos e nunca se apegar aos estereótipos já consolidados ou em processo de consolidação.
A ousadia da liberdade de interpretações, criações e até mesmo a cópia de parte do que já existe, pode sugerir que o pornô alternativo possui aspectos artísticos. Mas Rufião prefere ser mais modesto e diz que quer fazer apenas pornografia. Não importa como. Arte ou não, diz ele, é apenas a opinião das pessoas. O fato é: a pornografia alternativa, no constante processo de reinvenção, aproxima-se de um movimento moderno, modernista, de infinita busca pelo novo.
Atriz
Anita Ferrari, 23 anos, é atriz pornô profissional há cinco anos. Ela fez o primeiro trabalho com Alt Porn há um ano e considera o gênero mais agradável para trabalhar. "É diferente. Dá até gosto de fazer. Tem a produção e tem histórias. Não é como no convencional em que todos os trabalhos são iguais", diz.
Histórico
O gênero surgiu na cena underground norte-americana no final da década de 80, mas ficou consolidado por meio da Internet durante os anos 90. As principais referências no assunto são as produtoras Burning Angel, Gods Girl, Supercult e Acid Girls.
No Brasil, o Alt Porn ganhou força no final da década de 90, quando os próprios criadores da X-Plastic, os amigos Rufião, Tatão e Barbellax, fizeram um vídeo pornográfico com bonecas. Na época, os três gostavam de pornografia, mas concentravam os esforços apenas em uma banda de rock.
Em meados de 2005, após uma dezena de vídeos e sessões fotográficas caseiras publicadas em blogs, os amigos fizeram um site e passaram a produzir conteúdo de maneira mais regrada. Há um ano, foram convidados a fazer pornografia alternativa para a distribuidora de filmes Explícita, e garantem que a liberdade na produção não será prejudicada pela grande distribuidora.
"O importante é que isso funciona como uma grande família. Conhecemos todo mundo, das modelos aos fotógrafos que sempre trabalham com o Alt Porn", diz Husek, que tem o Freak Glam há quase dois anos.
Especial para Terra